quarta-feira, 20 de agosto de 2014

breves escritos de urgência II

eita que a coisa anda estranha
o mundo
torto como sempre
anda mais torto agora
ao menos para este que aqui está
perplexo como uma galinha
tonto como um gato manso
circunspecto como um demiurgo
não satisfeito com o mundo
que criou para si mesmo
um adágio sombrio prediz
que o que nos levará à ruína
é nossa profundamente arraigada
covardia
e que o mundo é dos fortes
jamais dos fracos
sujeitos as intempéries do coração
e as hesitações da mente e da carne



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

breves escritos de urgência

se refletíssemos todos os dias, alguns minutos minutos ao dia, acerca de nossa "condição", ao invés de simplesmente seguirmos vivendo no "drive de sempre", estaríamos menos fodidos talvez... mas refletir, ao que parece, não é só questão de ficar arquitetando conjecturas e soluções para nossos planos pessoais ou problemas sociais. o buraco (de cada um de nós) é bem mais embaixo.
se ao menos déssemos um pouco mais de atenção aos nossos sonhos, - e aqui refiro-me ao amontoado de estranhas imagens e plots aparentemente sem sentido que nos assalta em nossas noites de sono - quem sabe parte de nossa "substância inexplorada" pudesse esclarecer quisitos fundamentais que costumamos ignorar ao fazer nossas escolhas na vida.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

DITOS DE FEL


Não estamos acostumados a resolver as coisas. Antes, habituados a deixá-las como estão, ainda que apodreçam frente a impotência crônica de nossos olhos, somos drasticamente reduzidos a nossa mais profunda preguiça e miséria.


Mostre-me um "digno", e direi que tudo não passa de uma fantasia mal planejada. 


O amplamente legitimado autocentrismo, mal maior do século, é responsável pelo atual estado de desgraça e melancolia no qual nos afundamos mais e mais. Ninguém se interessa senão por seus próprios - e mesquinhos - assuntos.


Sabemos bem qual é a fome maior do propalado "novo século": para além das devastações causadas pela má distribuição de renda e recursos, o habitante dos grandes centros urbanos carece apenas de expressão e atenção. Sem "expressão" não há humanidade possível. Sem "atenção" - a si mesmo e ao outro - somos abandonados à própria sorte, como animais na savana. Ou, por outra, animais na savana ainda vislumbram possibilidades. Mas o que dizer de nós, seres perdidos entre nuvens de gases, horizontes ocultados por vastidões de concreto, destituídos de disponibilidade, compaixão, generosidade, amor e, não bastasse, já por demais apartados de nossa ancestralidade animal?


Não somos o que dizemos ser; apenas a pálida sombra do que escondemos, do que esquecemos. Apenas um acúmulo de esquecimentos, eis o que somos.


Nenhum de nós engana a nenhum de nós. Já não é mais possível enganar a ninguém em nenhuma circunstância. O excesso de virtualidades e o controle que exercemos através delas leva-nos a forjar nossa imagem, de modo a mostrar apenas o que gostaríamos que os outros vissem. Mas, ilusão das ilusões, a farsa dura pouco...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

VATICÍNIO

teu orgulho há de ser sua ruína
fique com sua vaidade
sozinha em sua piscina
nas mãos um cálice de estricnina

oco

no lugar de um afeto
um cego
no lugar do cego
um eco
no lugar do eco
um oco
no lugar do oco
um luar

sexta-feira, 31 de maio de 2013

CIRURGIA

1
Havia decidido fazer uma microcirurgia para extrair o excesso de prepúcio, que em contato com a glande vinha causando irritação e alergias. O urologista disse:
É uma operação simples, não dura mais que meia hora.
Ainda assim, menos por precaução que por temor, pediu anestesia geral.
Um pouco antes de seguir para o hospital, ligou pra mãe:
Mãe, tou indo pro hospital...
Com quem?
Sozinho.
Sozinho não vão te deixar fazer a cirurgia.
Por que?
Você pediu anestesia geral?
Pedi.
Tem que estar acompanhado.
Acompanhando?
É, filho, tem que ter alguém que se responsabilize por você.
Mas é só uma microcirurgia...
Você pediu anestesia geral?
Pedi, mãe, pedi...
Então arruma alguém pra te acompanhar.

E lá foi ele pensar em quem. Quem, àquela hora da tarde, em plena terça-feira, poderia acompanhá-lo a um hospital? E mais: quem teria a improvável disponibilidade de ficar com ele por 3 ou 4 horas? Ah sim, pensou. Quem sabe minha amiga do 1º andar.
Bateu na porta. Atendeu uma estranha:
Pois não.
Fulana está?
Não, saiu.
Sabe se demora?
Acho que sim. Ela quando sai assim...
Você é amiga dela?
É, tou de passagem, vou ficar uns dias.
...
Tomou coragem e mandou:
Você me faria um favor?
Depende.
É simples.
Fala.
Você... me acompanharia... ao hospital?
Alguém morreu?
Não, não... é que... eu vou fazer uma cirurgia. Coisa simples... e tenho que estar acompanhado.
Você pediu anestesia geral?
É, pois é, pedi.
Não sabe que tem que estar acompanhado?
Pois é...
Hoje é seu dia de sorte. Estou com a tarde livre.
Puxa, você me faria esse favor?
Só porque naquele dia você me emprestou açúcar.
Eu te emprestei açúcar?
Não lembra? Eu que bati na sua porta pra...
Ah, claro, como não. Era... claro, era você. É que...
O que?
Você tava diferente.
De shorts.
Pois é, tava... diferente.

Ela tinha um scort vermelho. Ele disse:
Precisa não. O hospital é aqui perto, vamos andando...
De jeito nenhum. Não é uma cirurgia o que você vai fazer?
Sim, mas...
E você não pediu anestesia geral?
Pedi, pedi...
Entra aí, eu te levo. Na volta você não vai poder fazer esforço.
A gente toma um taxi...
Faço questão.

E lá se foram.
Na recepção, ela acompanha atentamente as instruções que ele recebe de uma enfermeira. A seguir, ela também recebe instruções e sobe para o apartamento com ele. No elevador, rola um clima. Ela pergunta:
É cirurgia de que?
Microcirurgia.
Ok, mas é de que?
Coisa à toa, nada demais não.

Alguns minutos depois de se instalarem no apartamento, entra uma enfermeira com um barbeador descartável e ordena:
O senhor pode abaixar as calças e a cueca e ficar de pé aqui.
Surpresa e sem jeito, ela pede licença e vai ao banheiro.
A enfermeira raspa os pentelhos com a delicadeza peculiar das enfermeiras. Sem espuma, como se raspasse os pelos de um boi.
Ei, não dá pra pôr uma espuminha aí?
Que?
Espuma.
Ela simplesmente termina seu trabalho e sai.

Silêncio.
Ele avisa a acompanhante, que está no banheiro:
Tudo bem, pode sair.
Ela abre a porta devagar.
Tá tudo bem?
Tá.

Algum tempo depois, entra o anestesista, que talvez por ganhar muito bem pra fazer o que faz e, sobretudo, por fazer muito rápido o que faz e ainda assim ganhar um dinheirão, estampa na face um largo sorriso. O anestesista começa no tom típico dos anestesistas que, Deus sabe por que, adoram fazer piadinhas idiotas:
Tranquilo?
Nervoso.
Ah mas passa. Eu vou pôr uma vodkinha especial aqui e você vai dormir que nem um anjo.
Diz uma coisa... Uma coisa que sempre me intrigou... Por que os anestesistas adoram falar com os pacientes como se fossem débeis mentais?
Por que em geral, meu caro, eles são de fato uns...
Ele apaga. Teto preto. E fica sem saber o que, afinal, para o anestesista, os pacientes em geral são. Acontece que o anestesista, sempre muito ocupado em estar feliz por ganhar muito pra fazer quase nada, não se deu conta do real sentido da pergunta. Nosso paciente quis apenas saber por que os anestesistas (e não os pacientes) em geral se fazem de débeis mentais diante de seus pacientes.
Enfim...


2
Quando acorda, completamente grogue pelo efeito da anestesia, o urologista segura seu pênis, enquanto explica à sua companheira de quarto como fazer curativo no dito cujo. Completamente estarrecido, mas impossibilitado de reagir, ele troca olhares constrangedores com ela, como quem tenta dizer “céus, ele deve pensar que você é minha mulher!”. Ao mesmo tempo, percebe que ela está gostando da brincadeira de se fazer passar por sua mulher. Gostando muito. Mais do que ele gostaria, na verdade. E para um urologista, ao entrar num quarto onde um paciente acabou de fazer cirurgia no pênis e encontrar uma mulher, não resta dúvidas de que é a ela que ele vai se reportar para dar todas as recomendações do pós-operatório. Simples questão de rotina, nem se pergunta quem é quem nessa situação.
O fato é que quando o médico saiu do quarto, eles já eram íntimos. Pra quebrar o gelo, ela diz:
O médico disse que você tem que ficar um mês em total abstinência sexual, incluindo... a masturbação. Por causa dos pontos.
Ah, que legal...
E que alguém deve fazer seus curativos. Não é adequado você fazer sozinho.
Que bom, que legal...
Você não parece muito animado. A cirurgia foi um sucesso.
É mesmo? Nunca estive tão feliz...
Está incomodado? Com a minha presença?
Não, claro que não. Você me fez um favor de irmã...
Não sou sua irmã.
Eu sei... Força de expressão... Obrigado.
...
Você ficou constrangido com esse negócio do médico achar que eu sou sua...?
Meio estranho, né?
No começo também levei um susto. Mas depois achei até divertido.
Eu vi, eu vi.
Você não?
Desculpe, eu tou grogue demais pra falar disso agora. Você pode me ajudar, preciso ir ao banheiro mijar.
O enfermeiro avisou que você não pode levantar daí nos próximos 40 minutos. É perigoso, por causa da anestesia.
Ah, que bacana. E eu faço xixi aonde? Na fralda?
Ela ri e chama o enfermeiro. Entra um negão enorme, com cara de poucos amigos:
Que que é?
Preciso mijar.
Não dá.
Como não dá? Eu tou apertado.
O enfermeiro dá as costas e sai.
Fim da picada. Nego te trata como se você fosse uma coisa, um número, uma perturbação crônica.
Não reclama. Você está num dos melhores hospitais da cidade.
Uau. Imagine se não estivesse.

3
Final feliz. Os dois saem do hospital de mãos dadas. Depois dessa, não há nada a fazer senão namorar a moça que fará os curativos.
O problema – e, acredite, sempre há um problema, e dos grandes – é que, apesar da excitação de estar de namorada nova, doido para jogá-la sobre uma mesa e transar com ela pra valer, nosso operado tem que segurar sua onda, pois nem mesmo uma ereção ele pode suportar. Por uma simples e singela razão: a ereção estica a pele do pênis e, junto, a linha dos pontos, causando uma dor intolerável.

Mas aí acontece a coisa boa: durante um mês sem praticamente poder beijar sua nova namorada na boca, e tendo que vê-la diariamente trocando o curativo de seu pênis com carinho e devoção, nosso operado vai acumulando pela moça um tesão sem nome.

Um mês depois: pênis novo, namorada nova, nenhum beijo, nenhuma trepada. Ela termina de retirar o último curativo. Ele olha para ela, ainda agachada:
E a gente faz o que?
Ela não responde. Sua boca já está ocupada.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ANJO AZUL

Encantamento instantâneo. Ela canta sentada, pernas ligeiramente entreabertas, o olhar de soslaio, meio lastimoso, a interpretação simples, plena de sentimento. Nunca ouvi a canção, e o quadro todo, suavemente iluminado por um azul de sonho, não me deixa desviar os olhos dela.
Chove a cântaros. Estou sozinho bebendo conhaque em minha habitual jornada solitária de quarta-feira após o expediente, e jamais imaginei que daquele palco infame surgiria tão bela e comovente figura. O dono do bar, um gordo triste e fedorento, cujo nome nunca me interessei em saber, já anunciara que teríamos uma grata surpresa na noite. Contudo, como quase sempre as eventuais atrações deste antro reduzem-se a lamentáveis enganos artísticos, limito-me a não lhe dar o devido crédito.
Sou um dos únicos fregueses, afora alguns empresários ocupados com seus negócios, reunidos em torno de um notebook, e um casal que não consegue parar de se beijar.
Assim, não tendo para quem cantar, a criatura angelical banhada em azul passa a lançar olhares a princípio casuais em minha direção, que logo tornam-se constantes e acintosos. Fico tão desconcertado que mal consigo pedir outra dose. Acendo um cigarro e passo a encará-la de volta. Ela sorri e, entre uma canção e outra, anuncia: “A próxima é dedicada ao meu único ouvinte”. E canta “Movimento dos Barcos”. Nunca morri de amores por esse samba triste, mas o modo como ela o canta me embala a alma...
A seguir, ela faz um intervalo, quando então segreda ao microfone: “Não saiam daí. Eu vou ali e já volto.” Acho graça na maneira provocativa dela de anunciar seu entreato. Fico torcendo pra ela descer do palco e vir direto falar comigo. Mas a beldade simplesmente some nos bastidores. O bar então é subitamente invadido por uma dessas repulsivas seleções musicais...
Grito pro garçom:
- Pede pra abaixar esse lixo.
Ele, claro, não me ouve:
- Que?
- Abaixa um pouco esta merda.
- Ordens do patrão.
- O patrão sou eu. Sou freguês dessa joça e um dos únicos com coragem de ficar aqui por mais de uma hora.
- Fala você com o gordo. Ele não tá bom hoje não.
- É claro que ele não tá bom. Ele é um bosta.
- Diz você isso pra ele.
- Você também é um bosta.
- E você também é um bosta.
- Claro, aqui tudo é bosta. Essa música, eu, você, o gordo. Tudo uma bosta só.
- Que que há? Ainda não bebeu bastante?
Levanto e grito:
- Abaixem esta merda.
O gordo grita de volta, do outro lado do balcão:
- Ó a boca. Sem gritaria aqui dentro. Sem palavrão.
Subo na cadeira:
- Sem gritaria, sem palavrão, mas toca esta merda num volume de merda que é-
- Que é pra ninguém ficar falando merda, atalha o garçom, querendo me tirar de cima da cadeira. 
Acerto um direto de direita no queixo do desgraçado, ele cai em cima da mesa vizinha, estabaca-se no chão e não levanta. O gordo corre pra cima de mim, um búfalo. Não é preciso mais do que sair do lugar e deixar ele passar. O infeliz dá com os cornos no pilar ao lado de minha mesa. Dá gosto de ver. A cabeça é tão oca que o ruído da porrada ecoa mais alto do que a música.
Nessas alturas, os poucos fregueses já correram todos dali. Não sei de onde surge ela, trajando capa de chuva transparente, e simplesmente me arrasta para fora do bar.


A chuva escasseou, mas os trovões ribombam sem parar. Já na calçada, enquanto procura na bolsa a chave de seu carro, ela anuncia:
- Vem comigo. Essa espelunca não é pra você.
Entro no carro todo suado, molhado. Ficamos em silêncio um bom trecho, enquanto ela, tranquila e segura, dirige com prazer invejável. Sem me olhar, pergunta:
- Quer ouvir alguma coisa?
- Sua voz.
Ela sorri, apanha um disco no console e coloca-o pra rodar. Chet Baker, volume baixo. Respiro aliviado. Pergunto:
- Pra onde a gente tá indo?
- Quero fazer com você um negócio que não faço há muito tempo.
Gelado na barriga. A mulher que cantara só para mim e me salvara de uma enrascada ainda queria...
- Não é o que você está pensando.
- Não tou pensando nada.
- Vamos rodar até acabar o combustível. Quero te mostrar como essa cidade fica linda debaixo de chuva.
Rodamos rodamos rodamos.
Ela tem razão. Nunca me dei ao trabalho de observar a cidade em noite chuvosa. O asfalto brilha, as enxurradas sussurram, as ruas se livram de tanta gente, as luzes ficam difusas, calmas, as esquinas vazias. 
Quando enfim acaba o combustível, ela estaciona em frente a um conjunto bem iluminado de condomínios recém construídos.
- Estamos perto de casa. Quer fazer a gentileza de me levar até lá?
- Eu faria qualquer coisa...
- Não... Não qualquer coisa. Apenas me leve pra casa. Pode ser?
Levo-a, sob uma chuva fina, até seu endereço. Ao se voltar para mim, em frente ao portão, rola o silêncio.
- Ótima a sua companhia. Obrigada.
E me dá as costas.
- Espera. Você não vai...?
- Não. Não vou te convidar pra entrar.
- E amanhã? A gente pode se...?
- Viajo amanhã bem cedo. Volto só daqui há três meses.
- Tento ainda me conter, mas não consigo. Desabo a chorar diante dela, um menino abandonado. Ela me acaricia os cabelos:
- Pra que isso? Você nem me...
- Não importa. Vou te esperar.

Três meses depois ela volta a cantar no bar. Embora ainda iluminada, parece outra pessoa. Não canta as canções que eu espero, não me olha nem de soslaio e finge não me reconhecer. 

Hoje, quando a chuva cai, saio a vagar sozinho pela cidade, pensando nela.

sábado, 25 de maio de 2013

Não Angel......
Teu Apolo não pode comigo......
Formosura alguma vai arrastar-me nessas alturas da maré......
Nada nenhuma voz canto saia pernas crueldade......
Nada pode sequer arranhar-me agora......
Discursos verbos luminosidades paixões promessas dinheiro algum......
Tampouco jovialidade futuro pokers poderes armas letais.......
Nada
Nem mesmo este par de olhos
Nem mesmo isso
Nada vai me tirar daqui


quinta-feira, 23 de maio de 2013

De como fui vergonhosamente enganado em pleno carnaval por uma vampira que quase me matou


A fantasia era tão convincente, ao mesmo tempo tão deslocada, tudo  
tão  singular numa medida tão sem nome, que não pude deixar de cair na armadilha...
Segunda-feira de carnaval.
Estava sozinho e decidi brincar o carnaval por pura falta do que 
fazer. Como já não sou exatamente um rapaz, vesti o que julgava ser 
adequado para um baile privado, num desses clubes famosos, engoli com 
pressa umas doses de bourbon e pus-me a caminho do baile.
Mal sabia o que me esperava... Se soubesse, certamente não teria 
tirado a bunda de casa. Mas a gente nunca sabe, então cometemos
erros com estúpida e tranqüila convicção.
Ela chegou perto da meia-noite. Solitária e atenta, enfiou-se no meio 
da multidão, como quem não quer ser notada. Não tirei os olhos dela, 
disposto a persegui-la atentamente pelo salão. Pálida, trajava 
fantasia  vamp, e tinha perto da boca e pescoço curiosas manchas 
escuras. Achei graça na escolha, especialmente porque tudo, no caso 
dela, achava-se no lugar e tom certos, como se ela não tivesse outra 
opção.
Estranhei apenas o fato de estar sozinha, já que moças, em geral, 
não andam desacompanhas em noites assim...
Aproximei-me. Trêmulo, arrisquei uma conversa:
Ei você...
Quem? Eu?
Sim, você...
O que?
Você é uma?...
O que?
O que?
Sou uma o que?...
Vampira?
Se você quiser...
Mas...
Que?
Você é um tesão.
Quer me comer?
Ahn?!
Me foder gostoso?
Quero.
Esperando o que?...
Você é linda.
Me chupa.
Agora?
Ou prefere que eu chupe você?
E se agachou ali mesmo, abriu minha braguilha, tirou meu pau pra 
fora e introduziu-o em sua boca, passando a sugá-lo lentamente.
De minha parte, fiquei sem saber o que fazer em meio àquela multidão, 
com uma garota da metade da minha idade com meu pau na boca e eu 
tentando fingir que as coisas são assim mesmo...
O tesão era tão intenso, que cheguei a me curvar...
Ei, o que está fazendo?
Chupando você, baby...
Vamos lá pra fora.
Saí com ela. Ao passar pelo segurança, não pude deixar de notar que ela transpirava fartamente e me olhava com fúria. Sua boca, seus dentes, tudo tinha uma coloração avermelhada, mas para mim aquilo era apenas o efeito do baton.
Sentia quase como se ela tivesse mordido meu pênis, que doía um pouco...
Ela disse:
Vamos ali naquele muro. Vou acabar com você.
Meu tesão era tão grande que não me opus.
Quero chupar você no pescoço, querido. Você deixa?
Pode sim, tesuda... Me arrebenta.
Vou fazer isso.
Céus, ela parecia um homem. Ou, ao menos, tinha a força de uns dez. Empurrou-me contra o muro com rara destreza, apertando-me contra a parede, e foi direto no meu pescoço, a cadela sedenta. Cravou seus fortes caninos em minha jugular e sugou, sugou, sugou... 
Começou a amanhecer, ela foi se retirando devagar.
Balbuciei:
Ei, tesuda... não me abandone assim... o pescoço destroçado... o pau duro... o pensamento em você... Não me deixe...
Volto pra conferir o estrago amanhã de noite.
Te espero, baby...
E foi assim que conheci a vamp do carnaval, que até hoje povoa meus sonhos eróticos.    

quinta-feira, 9 de maio de 2013

???

Oi tudo bem?
Não sabia que você existia.
Agora sei e agora escrevo.
Não sei onde isso vai dar.
Antes as coisas fluíam com certa desenvoltura em direção a algo.
Hoje é tudo tão difícil e espinhoso, como se já tivéssemos esgotado todas as possibilidades.
Mas não
Ilusões do tempo.
As coisas se renovam se atualizam e se harmonizam sem parar, tanto quanto nossos corpos se reequilibram para seguir vivendo.
Mas a decadência física é como um sonho ruim a nos rondar, uma promessa, e uma daquelas que jamais deixou de ser cumprida.
Resumo do drama: as coisas e os acontecimentos potenciais se multiplicam, enquanto o corpo, no sentido inverso, decai.
Como conciliar tal fatal contradição? 

Desinsistências

Ao que parece, as coisas só acontecem quando desistimos (delas) ou insistimos (nelas).
No meu caso, vem sendo questão de desinsistências. Desisto, mas meu coração independente segue batendo pela coisa. De formas que um belo dia a coisa cai no seu colo, como um milagre ou uma graça concedida àqueles que souberam desistir sem esquecer.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O QUARTO DO DESEJO

Dedicado a memória de Isaac Garib Netto

Narro este episódio menos para registrá-lo do que para livrar-me do horror que suscita. Não faria questão de assim proceder não fosse a horrenda sensação que de mim se apodera toda vez em que tento recordá-lo.
Antes, porém, julgo necessário alertar aos que se atrevem a ler estas linhas que sou um homem insensível. Não obstante, meu ofício talvez permita uma ou outra crise de consciência, uma ou outra febre de culpa, doenças das quais muitos estão, senão inteiramente livres, ao menos mais seguramente distantes do que por hora me encontro.
Trato, assim, de iniciar meu relato:
“O estranho caso ocorreu no ano de 1975, no remoto interior do estado de São Paulo. As lavouras de café da região haviam sido devastadas por uma das geadas mais rigorosas das últimas décadas. Lembro-me bem de papai ao entrar em casa naquela noite fria. Atônito, levava nas mãos um galho de café esturricado. Com os olhos marejados, balbuciou no meio da sala:
- O trabalho de um ano inteiro... destruído em uma madrugada.
A estúpida lei da natureza: algo contingente arruinar uma empresa tão cuidadosamente planejada e dia a dia cultivada. Esse tipo de desdita devia ser convertida numa espécie de tabu natural, algo de que a própria Terra aprendesse a se envergonhar e a se defender, com largas vantagens e com unhas e dentes. Mas, ao revés, o que vemos são espetáculos randômicos onde imperam os acidentes mais injustificados. Não deixa de ser fortuna, para nós, ignorarmos em que medida os acasos operam em nossas vidas. Caso contrário, ou bem enlouqueceríamos ou duvidaríamos para sempre de coisas como destino e livre-arbítrio. De nada adianta negar a fatalidade do imprevisível. A lei da incerteza parece ser a única.
Basta de dança. Adiante.
Em meio a atmosfera lúgubre de minha casa, e intimidado por um inverno sem precedentes, era então inevitável que minhas impressões de menino, já naturalmente suscetíveis, fossem tão sombriamente marcadas pelas circunstâncias. Ademais vovó estava já deitada em seu leito de morte, na cama grande do quarto grande de minha irmã mais velha. Por conta disso, nosso antes belo jardim murchava a olhos vistos, pois vovó era a única a se importar com ele.
E foi então que testemunhei algo aterrador.
Prognosticariam os céticos que eu estivera em estado não confiável ao achar-me por demais impressionado com o contorno da situação. Mas bem sei o que ouvi, e nem mesmo as suspeitas mais fundamentadas me poriam em dúvida.
O fato é que por volta das 23:50 do dia 17 de julho, quando passava pelo longo corredor que ligava a sala de jantar aos quartos, ouvi, na altura do aposento em que vovó agonizava, o que parecia ser uma espécie de grunhido animal, quase um sussurro, seguido do inconfundível estalar de folhas secas sob um andar cauteloso. Parei imediatamente e pus-me a escutar, orelha grudada na porta. Limito-me a reproduzir o que ouvi:
- Se você quer conselhos ao invés de alertas, eis o conselho: esteja alerta, e preste atenção nesta canção..., ao que se seguiu um canto muito baixo, cuja letra esforcei-me por decifrar.
Imagine então meu torpor ao dar-me conta de que aquela não era a voz de vovó. Tampouco os ruídos poderiam estar sendo causados por ela, devido a frágil saúde que a obrigava a permanecer deitada. Contive-me ao máximo para não me alterar e, com uma frieza que até então desconhecia, arrisquei:
- Quem é você?
Estalar de folhas secas, respiração ofegante.
- O que você quer?
Riso abafado, lenta aproximação. Cresce meu medo.
- Quem está aí?
- ...
- Deixe a vovó em paz.
- ...
- Ela está muito doente, não é bom ficar zanzando pelo quarto.
- ...
- Por que se trancou aí? Essa porta deve ficar sempre aberta para que possamos cuidar dela.
- ...
- Por favor, abra a porta.
Grande agitação, como se a coisa do outro lado se impacientasse de súbito. Sinto grande temor, pois um sopro frio atinge-me a nuca como uma pancada. Paralisado, aterrorizado, ouço o sussurro:
- Você gosta de brincar com fogo.
- Que canção é essa? Não entendi a letra.
- ...
- Pode repeti-la?
- ...
- Por favor.
Ouvi então, ainda como um sopro, e a despeito de todo o meu pavor, o que dizia a cantilena do outro lado da porta:
Não procure, amigo, o grande formigueiro,
Ele está embaixo de você;
Não almeje, meu anjo, a santa perfeição,
Ela está fora de você;
Não queira, coração, a infelicidade,
Ela virá até você.

Já sem conseguir deter a tremedeira que me dominava, insisti:
- O que é você?
- O quarto do desejo.
- Posso desejar o que quiser?
- Sim.
- E meu desejo será?...
- Sim.
...
- Quero morrer no lugar de vovó.
- Assim será.
Morri.
Vovó continua viva. Aos 87 anos ainda arruma disposição para cuidar do jardim, hoje mais florido do que nunca. Papai deixou, a pedido de mamãe, sua grande paixão, as lavouras de café. E desde então nenhum inverno igualou, nem de longe, o de 1975.”

terça-feira, 2 de agosto de 2011

celibatário

o celibato me parece a única forma razoável de manter-se só. não quero levantar bandeira, longe de mim despautério desse. cada qual encontre seu modo de estar sozinho, sem que por isso venha a tornar-se surdo-mudo impermeável ao mundo.
também não me apraz o amargo niilista, avesso a qualquer possibilidade.
estamos aí, abertos ao que vier.
o que não dá - e o que dá preguiça - é obrigar-se a correr pra pista e dar pulinhos pra que todos saibam que estamos disponíveis.
prefiro passeio ou conversa com meu filho, amigo, amiga.
o barulho dos vizinhos.
a companhia silenciosa de um gato.
a taça de cabernet, um bom filme, boa leitura, música.
claro que a vida não é só isso.
e claro que coisas não caem do céu em nosso colo.
ok.
mas daí a pensar que temos de revirar o mundo em busca da satisfação de desejos,
e que esta é a única coisa que importa...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

o que deveria dizer?
o que podem as palavras?
são nada frente ao inferno
devemos sempre
ao que queremos dizer
nunca dizemos
se fossemos capazes
prescindiríamos de palavras
ruiriam
riríamos delas
vagaríamos imprecisos
sem nos escrever
sem nos ler
esta sim
quem sabe
a glória possível

quinta-feira, 28 de julho de 2011

sonho

flechas no coração do santo
chuva sobre cabeças ocas
morte repentina no seio da madrugada
bota pisando rosto indiferente
milagre na esquina de cá
tédio nos demais quarteirões
um regimento esperando a ordem
o momento que antecede o ato
o ato vazio de intenções
o medo animal
atravessa a nado vasta porção de mar
o mar propriamente dito
parado
nenhum movimento
nada
e de repente algo se levanta
um inseto medita
mãos vasculham espaços
regaços
traços
passos
um trator pelo acostamento
a moça de laranja pergunta algo a alguém
alguém a ignora
a moça de laranja manda um beijo
desejo que seja para mim
noto que o alvo é outro
um moço feio atrás de mim
pergunto a ele quem é ela
ele diz que também não sabe
digo a ele que ela é bela
ele sorri
os dentes amarelos
o desespero
inscrito em sua pele escura
a delicadeza de sua voz
os sons que não percebo

domingo, 24 de julho de 2011

conselho de filho

estava nublado, triste, o peso no peito. em conversa, me queixava sobre pessoas, o alheio imprevisível e seus inconvenientes.
ele me disse: "se vir uma pessoa que considera 'melhor' que você, procure imitá-la; se encontrar uma que considera 'pior', olhe pra você", e recostou-se, tranquilo, na poltrona.
notei que me queixava de seres excessivamente inquietos e falantes, farsantes, supostamente resolvidos e aparentemente muito inteligentes.
caí do cavalo.
eis-me então, transparente, em toda sua confusa fragilidade: lá estava, mudo e desnudo, perplexo e desmascarado, frente ao generoso conselho de meu filho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

nem tão perdidos assim...

Ando achando que o melhor a fazer, por hora, é produzir. Produzir de qualquer maneira: ainda que sem dinheiro, sem apoio, sem público, sem resposta. O que naturalmente não significa que faremos qualquer coisa. Muito ao contrário: faremos o melhor precisamente por não estarmos comprometidos com editais, datas, patrocinadores, demandas artísticas, etc.
Muitos diriam: "Sem comprometimentos não se chega nem na esquina." Quem disse isso? Creio que produzir nessas condições, sem tantos comprometimentos profissionais, sem data de estreia, faz com que o único compromisso seja com o próprio trabalho, e com nada além disso. E isto, ao menos pra mim, tem sido um oásis de alívio e liberdade artística.
Acontece que estamos vivendo uma fase de mercado essencialmente utilitarista, triste, pobre, viciada, preguiçosa, preconceituosa. Só nos comprometemos com o que é certo, a contingência nos apavora. Não aceitamos trabalhar sem contrato (sem dinheiro nem pensar!), não nos dispomos a investir nosso tempo e energia criativa em algo que tenha o perfil de um investimento. Só encaramos a possibilidade de ganhar, e isto, por natureza, é um contra-senso! Quando se joga, seja em que circunstância for (de enormemente favorável a extremamente improvável), temos ainda, potencialmente, 50% a favor e 50% contra. O negócio é uma loteria: se você jogar, tem mínimas possibilidades; se não jogar, é impossível.
Não estou aqui levantando a bandeira do "eterno amadorismo-diletante", longe de mim esse negócio. Só o que pretendo dizer é que para entrar em algum lugar é preciso mostrar trabalho, mas não qualquer trabalho. É preciso muitos nãos - o que sem dúvida exige coragem e determinação, além de sólida certeza íntima e o aluguel devidamente quitado - para apenas um sim.
Pra mim, o único meio de não mostrar "qualquer trabalho", mas algo que derive de uma real necessidade artística, e que portanto possa resultar em alguma coisa original e honesta e, quiçá, ter algum valor artístico, é se trabalharmos em paz, sem pressões, sem tumultos, na mais profunda e imperturbável fé, sem pressa, sem ansiedade, sem impaciências, como também sem indolências. A impaciência e a preguiça estragam tudo.
Outra medida importante: trabalhar com uma equipe a mais reduzida possível e não comprar nada feito, fazer em casa. O que quer que haja por aí que já esteja pronto, recusamos. E por uma razão muito simples: somos capazes de fazer. Se irá resultar "melhor" ou "pior" é bem outra questão. O importante é saber que, neste caso, fumaremos nosso próprio charuto; pode não ser um "havana", mas é nosso.
Eis tudo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

reflexões

Posto aqui, com orgulho de pai, uma reflexão de meu filho, Gabriel.

Não há uma única fórmula para toda e qualquer situação. O que talvez exista é uma fórmula específica para cada situação, momento, experiência de vida. “Se for calmo e pacífico estarei no caminho certo.” De fato, este é um bom caminho, mas não é todo o caminho. É preciso dividir as partes para adquirir tanto a força quanto a leveza. Há momentos em que não há como ser maleável, precisa-se de força, perseverança. É aí que começa o problema. Como ser forte e maleável ao mesmo tempo? Como dirigir e deixar ser dirigido? O problema, portanto, é saber utilizar os recursos, como na própria matemática. O momento certo para aplicar as diferentes formas de agir.

Outro problema na equação é a constante. Como toda equação matemática e física exige uma constante, a vida também exige. Como manter o ritmo e a constância dentro de uma vida tão cheia de desafios? Talvez o problema não seja os desafios, e sim nós mesmos. Nós somos nossos próprios desafios. A resposta desta equação matemática está dentro de nós. Quem sou eu? Mas será que essa resposta também não é mutável como todas as outras? O “eu” muda constantemente, a cada dia, a cada livro, a cada música, a cada novo conceito adquirido. É difícil manter-se constante nesse processo de eterno aprendizado. Por sermos eternos aprendizes, caímos, cair é inevitável. Porém somos nós que decidimos quanto tempo ficaremos caídos.

A resposta à equação? Parece aquelas dízimas periódicas, quando acho que já encontrei todos os números possíveis, aparecem novos números e eu nunca obtenho a resposta completa, apenas uma pequena parte. Como a água que preenche contínua e gradualmente todos os espaços vazios e enfim segue adiante, eternamente.
madrugada frio vento forte
batem as janelas e me acordam
para o tempo em que morria de medo
de madrugada de frio de vento forte
insône dou-me conta
passaram-se quantos anos mesmo?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

às feras

seria preciso um tratado de ciências naturais para engendrar hipóteses
pois fealdade e crueldade não andam sempre juntas
aliás, estou mais propenso a crer que crueldade é atributo menos de feras do que de belas
a fera é cruel por excesso de desprezo (quando não de desespero)
e a "farinha do desprezo", já o disse macal, não é coisa que se coma
já a bela se compraz em ser cruel apenas porque é bela, ou por excesso de atenções, o que é decididamente muito feio
infere-se disto que a gentileza da fera é, em geral, mais aprazível do que a crueldade da bela
entre belas cruéis e feras gentis, dispostas em mesas separadas num salão de chá, não hesitaria em sentar-me à mesa da gentileza

quinta-feira, 23 de junho de 2011

às belas

Você bela
Seja bela
Mas saiba
Que um belo dia
Alguém virá
E dirá
"Beleza concedida é beleza devida"
Portanto não se gabe tanto 
Por ter sido emprestada
Ela lhe será cobrada
Com juros e correções
E sem corretivos

domingo, 19 de junho de 2011

Morro ao crer
Em tuas crenças no poder
Sangro ao merecer
Sua tramóia seu parecer
Mas folgo em saber
Que teus ais são pra valer
E vivo pra ver
O que te faz querer morrer

sábado, 18 de junho de 2011

ok ok
o vento é forte a casa fraca
a música divina o coração terrestre
o verbo infatigável o silêncio distante
a doença ocupação a cura a morte
o sexo muito afeto pouco
gelo muito calor pouco
trabalho dinheiro ofício outra coisa
sensação permanente intuição rara
razão insuficiente paixão tara
sentimento tumor amor enfrentamento
carícia um horror malícia uma flor
ok
mas se menos barulhentos
cultivássemos silêncios
vivêssemos aqui vivêssemos
agora
se amar fosse um instinto
e mergulhássemos em campos
unificados
como crianças em piscinas
em dias ensolarados
aí seria como?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

meditação

nunca jamais em toda a minha me senti tão
fico pensando
mas é um pensamento de cada vez
suavesuave
sem aquela urgência, sem aquelaaaaaaa
no lugar disso uma espécie deeeeeeeee
certeza?
sim, de certeza íntima
sim de certeza íntima num mundo inteiramente contingente
é assim
alguma coisa relacionada a destino
a destinação
a que será que me destino
claro que a resposta é vaga
e aí chega uma hora clara em que a confusão vai lentamente cedendo
- como uma neblina espessa bem devagar vai dispersando -
e vislumbramos
o que somos?
nãnão
a que mais ou menos nos destinamos
vislumbramos um pedaço desse troço
leva anos esse negócio, é uma graça
uma graça que se recebe quase sem esforço
como um presente de um deus bonzinho
mas o deus nos mostra apenas a sombra de uma possível vocação,
jamais o que devemos ou deveríamos fazer com isso
é tipo: te vira
faça com isso o que melhor lhe aprouver
faça com isso o que quiser
faça com isso o que te faz feliz, se puder
a responsabilidade é sua
não me olhe com essa cara
fiz minha parte
o samba é esse
agora o seguinte: tem samba no pé aí?

terça-feira, 31 de maio de 2011

mesmo de olhos bem abertos
não enxergo a pedra pequena
no meio do caminho
que irá me arremessar ao chão
não há porque se envergonhar
todos caem 
cedo ou tarde
no profundíssimo abismo do ser
para ser ou não ser 
eternamente
o que intriga não é por que as coisas são o que são 
ou como são
mas apenas por que escolheram ser
ao invés de não ser
e mais ainda
por que ao escolherem ser
insistem em seguir sendo o que são 
para sempre
como se isto não fosse
um grande absurdo
estava em meu jardim e vi 3 rosas novas
não sabia como começar meu dia
e as 3 rosas me inspiraram a começar pensando em possibilidades até então-
por exemplo me dedicar a tocar um instrumento - falar outra língua - desenhar docemente - produzir e dirigir um longa - escrever um romance sobre a inexatidão - fazer jardinagem - investir na bolsa de valores - ser um exímio cozinheiro - dar a vida por algo/alguém - ir para a guerra - ser vocalista de uma banda experimental - malhar até virar samurai - dar a volta ao mundo - conhecer o atacama - andar num porsche a 200 por hora - praticar mergulho em mares transparentes - ler em busca do tempo perdido - ler a crítica da razão pura - ler as cinco éticas de espinosa - tomar uma dom perignon no ritz de paris devidamente bem acompanhado - saltar no vazio com um elástico preso ao tornozelo - caçar javalis com um rei e sua corte - ter muitos filhos com a mulher da minha vida - derrubar um peso pesado no primeiro round com um cruzado de direita - construir uma casa grande com meus filhos - ver a curvatura da terra num caça supersônico - compor e cantar um samba-enredo - dar amor carinho e atenção a desconhecidos - ser o artilheiro da copa - cantar com joão bosco - escrever o poema da minha geração - traduzir o finnegans wake - pintar um tríptico sobre a loucura - ler toda a obra de borges numa tarde chuvosa - fazer uma ponta num filme do woody allen - esquiar na neve - dar cavalo de pau com jet-esqui - fumar no túmulo de frank zappa - ressucitar stanley kubrick - jantar com os fantasmas de cioran, beckett e kafka - escrever um roteiro a partir de dr. jekill and mr. hide para ser rodado por tim burton - reler cem anos de solidão - ganhar um solo de guitarra do slash (ou a guitarra do slash) - meditar com mr. lynch - jogar pedrinhas no mar até criar um conceito intrigante - fazer um dueto com cecilia bartolli - encenar uma ópera no scala de milão - ser o juiz de um caso difícil - compreender os ingleses e os franceses - dar uma aula aberta em harvard sem qualquer pós - pilotar um helicóptero no grand-canyon - revolucionar o conceito de filme pornô - dançar com sylvie guillem - parar o tempo - sair fora do espaço - enganar a contingência - peidar na lua             
 

sábado, 28 de maio de 2011

carne rasga
folha
em branco
cabeça
em branco
noite
branca
palavras brancas
linda no vocal
falta de modos
de perspectiva
fé pequena
fé fatal
fé forte
podres palavras
clichê funcional
amarre-me ao pé da mesa
cubra-me de porradas
cuspa-me
faça-me comer o pão
que o diabo nem vê
faça o que for preciso
mas pare de me torturar
com ninharias

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Oh delírios líricos colírios olhos os olhos olham as trevas e choram e chamam e chamam imploram
E choram lentamente emboloram e chamam as chamas da terra e choram novamente imploram
Por mais luzes menos misérias matérias mais claridades clarezas cristais raridades levezas belezas
Invisibilidades
Ah sutilezas
são leves suas mesas
Ah sutilezas
que asas que tesas

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

sempre 
que palavra
só dita pelo criador de tudo sempre aí
entediado 
aborrecido 
por vezes exultante
hiper motivado
enormemente inspirado
morbidamente estúpido
mas sempre aí
inventando a moda
big bangs
buracos 
negros
brancos
de um lado dissolução
de outro explosões de matéria 
quando perguntaram a um mestre taoista o que era o tao ele disse não posso dizer o que o tao é pois se eu disser o que ele é vocês pensarão no que ele não é e ele não é também     

sábado, 15 de janeiro de 2011

15 do 10
10 + 45
passam tempestades
vamos tocando boiada
fechando olhos
abrindo olhos
com requintada cautela
deixando o barco escorrer
sem perceber
vem chegando o tornado
o telefonema
que há de nos arremessar de volta
ao frio febre ao fogo fato
de que de tão pequenos
tão sem GPS
tão diluídos
somos matéria prima
de um caos
e de que nesta vasta tormenta
somos como aquele vapor
de Turner
naquela nevasca